
Voltando para Belo Horizonte, depois de uma viagem, parei para saborear um delicioso pescado em um restaurante de comida mineira, às margens do Rio São Francisco, próximo à cidade de Três Marias. O restaurante situava-se sob uma grande ponte que cortava o rio. Tal ponte derramava sobre alguns pescadores na margem, uma densa sombra que os protegia do sol, refrescando-os naquela tarde sem vento.
Pude observar bem próximo à minha mesa, uma família ribeirinha, que parecia praticar a pesca para seu próprio sustento. Junto a eles estavam alguns equipamentos velhos como varas de pesca e alguns baldes com iscas, todos amontoados dentro de um barco a motor, que tremulava calmamente nas pequenas ondas que alisavam a beira do rio.
Lembrei-me do polêmico projeto de transposição do Rio São Francisco, e nas conseqüências que causariam na vida desta família, que parecia distraída e não saberem o suficiente sobre o assunto. Pouco tempo depois, inteirei-me sobre o fato e tomei conhecimento de alguns dados interessantes.
Temos a idéia de que a falta de água para beber ou para cozinhar é o principal problema da população que vive no semiárido brasileiro, mas apenas 10% de toda a água retirada dos rios e lagos são destinadas para o uso doméstico. Assim, na maioria dos casos, uma cisterna cavada no quintal ou um reservatório para armazenar a água seria o suficiente para essas tarefas domésticas. Outros 20% são destinados ao uso industrial e o restante, 70% do precioso líquido, é retirado para agricultura e é aí que está o problema. Essa grande quantidade de água desviada para a agricultura é o que está faltando para o sofrido povo de rostos empoeirados.
Com o desvio do “Velho Chico”, as práticas agrícolas dessa população poderão seguir sem os problemas causados pelos longos períodos de estiagem.
Mas com a transposição do rio, qual seria o destino da família ribeirinha que pescava seu próprio almoço sob a sombra da grande ponte de concreto?
Segundo um professor da UFRJ, está previsto para o projeto a retirada de apenas 3% das águas que correm no rio e apenas esta quantidade será o suficiente para o sustendo das pessoas que residem no semiárido brasileiro. Tal proporção desviada será imperceptível nas margens do grande rio e a família de pescadores poderá continuar calma e distraída enquanto pesca o peixe para a moqueca do almoço.