Já estava preparado para a desordem de La Paz, bem antes da minha chegada à cidade. Atrasos de ônibus, informações mal dadas, pedintes de esmolas e jovens desocupados pelas ruas não eram problema para mim, caso contrário passaria bem longe daquele país.
Instalei-me em um velho hotel que ostentava em sua fachada, duas estrelas de acrílico ressecado e quebradiço que piscavam, teimando para se manterem acesas, suspensas por fios empoeirados presos na alvenaria. Bem ao lado delas, na suja parede, havia a marca carbonizada de uma terceira estrela, mas o fio que a sustentava já não estava ali. Provavelmente a duas estrelas pendentes teriam um final parecido, caso acontecesse mais algum problema elétrico naquela fiação.
Essa visão também não me surpreendeu, pois eu já estava prevenido para essa situação e sem muito esforço já pude imaginar as condições de meu aposento. Deixei meu mochilão no quarto e parti sem medo para meu safári na cidade.
Andei por pouco tempo pelas ruelas de pedras, cercadas por sobrados e casarões que se espremiam uns aos outros bloqueando a luz do sol. Eram tantas as rachaduras nas paredes dessas construções que pareciam que elas foram causadas por essa pressão que unia os decadentes edifícios. Notei que o Mercado das Bruxas estava próximo.
Poucos passos adiante, barracas e camelôs lotados de mercadoria se misturavam com a multidão. Esse famoso mercado crescera bastante nos últimos anos por causa do grande número de bolivianos que fugiram da dura vida de trabalho nas minas de prata do sul do país e da grande seca e pobreza do Altiplano Andino, se instalando em La Paz para trabalharem como autônomos no mercado. Com eles, os costumes, a cultura e principalmente as estranhas mercadorias de toda a Bolívia foram trazidas e expostas para a venda no Mercado das Bruxas.
Amontoadas nas barracas estavam falsificações baratas de camisas que estampavam os logotipos de famosas marcas mundiais. Podia-se achar todo o tipo de quinquilharia, bugiganga, enfeites e amuletos que se espera encontrar um centro de comércio informal, mas finalmente algo chamou minha atenção. Fetos mumificados de llamas e urubus enchiam grandes cestas de palha espalhadas pela rua em todas as banquinhas. Mais uma manifestação do modo de vida do povo indígena boliviano foi levada ao mercado para surpresa de todos que se aventuravam por aqueles becos. Essas exóticas mercadorias eram usadas pelo povo local em seus rituais sagrados e feitiçarias, justificando o distinto nome do mercado.